quinta-feira, 20 de julho de 2023

Análise da letra da música Jeito de Mato. E meu ensaio literário.

Interpretação da Letra Jeito de Mato, de Paula Fernandes.


Por Anaor Terris Rodrigues, fev 2020



Suponho eu que a letra da música Jeito de Mato foi criada por Paula Fernandes, o que se não for verdadeiro, pouco importará. É da letra desta música que discorrerei, eu acho. O ser humano é vaidoso no sentido mais amplo da palavra, mas não quero entrar nesse assunto. Mas para fins de interpretação desta letra de música, que é algo longe de decifrar a beleza da arte musical contida nela, estarei me referindo a uma vaidade adocicada. Se preferir, que não é ruim nem negativa, talvez. Quem é portador de bons atributos, pode admirar desde que sem exagero, seus próprios dotes, sem maiores constrangimentos.
Com compromisso de uma verdadeira autoria sobre esta interpretação - a inspiração de minha interpretação - "eu cito o mundo". Isso é Clarice Lispector que hoje são só ossos (ai de nós) e já tinha finalmente se finalizado muito antes de nascer Paula Fernandes, mas influenciou esse meu texto. Isso é Paixão Segundo G.H, Hora da estrela etc.
“De onde é que vem esses olhos tão tristes?”. Vem da "menina da voz doce", mas essa é a interpretação da própria autora que não me interessa. Antes de mais nada, a autora se refere aos seus próprios olhos. Depois isso já é três graus acima de ela se achar bela. Explico: O primeiro grau já acabei de expor: ela se acha bela. Apesar da escolha de uma parte material corpórea, haveria mais do que beleza física, pois “os olhos são a janela da alma”. Entretanto existe é claro a beleza corporal (rosto + corpo) ou beleza exterior desvinculada de qualquer aspecto espirituoso ou de grandeza. Todas estas características são consideradas, mas o destaque maior é dado para a beleza física. 
Eu já continuo falando da beleza, mas antes quero só lamentar que meus textos nunca estão concluídos, sempre lhe faltam atualizações seguida de finalização. Nunca finalizei-os. Acho que é porque não quero. Não gosto do fim? Não. É porque não tenho conseguido fazer isso.
Sendo beleza difícil de dizer e optando por alguma parte de seu corpo que a resuma, então se considera os olhos como representantes de sua beleza que evidentemente é isenta de beleza erótica. Será? De qualquer "jeito" são olhos de Paula Fernandes e docemente carregados nos cílios. Este é o segundo grau acima de ela se achar bela simplesmente, ou seja a chamada para seus próprios olhos. O terceiro grau, no qual realmente inicia-se a música, refere-se a beleza da tristeza. Invertendo substantivo e adjetivo, talvez se elucide melhor: tristeza bela. É aquele mesmo tipo de beleza que os quase extintos emos,  cultivam.  
“Campina onde o sol se deita”, compõe o senário poético da cultura regional. Poético por dizer sobre a beleza do pôr do sol, que ele “se deita”. "Campina" também compõe tal senário, mas também revela o estilo musical, neste caso, um tipo de sertanejo, aquele de raízes da vida no campo [e não no sertão]. 
“Do regalo de terra que o teu dorso ajeita”, é um verso mais obscuro, podendo ser referencia a si mesma. Mas enveredarei no que acho mais provável: algum homem que é belo para a autora e que esteja trabalhando na fazenda que ela ali também está. A ideia de labor vem do dorso ajeitando a terra. Dorso pode lembrar um corpo bem definido. Como que se ela estivesse desejando ou contemplando algum elegante trabalhador do campo. "Ajeitando a terra" pode ser fazendo atividades próprias do campo como plantando, colhendo e etc. 
“Dorme serena e no sereno sonha”, é estético e tem objetivo de provocar ou despertar sentimento líricos no ouvinte. Isso poderia se aplicar a toda a música, mas aqui mais. Se percebe isso ao mesclar sentidos diferentes da palavra sereno. “Dorme serena", expõe a identidade feminina da autora e talvez sua feminilidade. Em outros trechos, ela se apresenta no masculino ou no impessoal, o que é algo comum de se fazer em poesias, o que então não a torna uma ativista do feminismo. "Dormir no sereno e sonhar no sereno" pode arremeter a um simples sono e sonhos tranquilos enquanto ocorre o sereno “lá fora”. Mas também pode expandir e interconectar de modo profundo o dormir tranquilo com o sereno e com o sonhar. Esse modo profundo não saberei explicar porque seria descrever um sentido poético puro.  Por outro lado, volta a autora falar de si mesma, se admirando ao dormir serenamente. Estou arriscando que possa significar alguma destas coisas. Mas pode ser nenhuma, várias delas ou todas elas e outras que não atingi. Isso será valido para vários versos, desta música e de várias outras; e sobretudo para a interpretação de vários outros interpretadores de música e de quaisquer outras coisas da vida e do mundo.  
“No sereno sonha”, é dormir ao ar livre. Mas também pode ser ela dormir tranquila enquanto que o homem de “belo dorso que prazerosamente ajeita a terra”, por sua ocupação está locado de forma a quase dormir ao ar livre, próximo da natureza e que ele é apaixonado por ela, que preza esse sentimento dele gostando de ser desejada. Ela é a princesinha que dorme em um belo quarto seguro e tranquilo e ele é o robusto belo, com jeito de homem do campo [jeito de mato] e que está “caidinho” por ela.  
Mas “dorme serena e no sereno sonha”, pode significar também que ela fique pensando no sujeito antes de adormecer, o que além de fazer seu sono tranquilo, faz ela sonhar com ele [no sentido de desejo] que trabalha até tarde, ou seja durante a noite que serena. Por isso ele é o sereno que ela sonha enquanto dorme serena. Mas sereno pode ser simplesmente a noite e o sonhar pode ser desejar ardentemente. Então é quando os desejos e lembranças se afloram durante a noite enquanto se está deitado. Se sente então os mais íntimos e profundos desejos. Lembranças invadem os pensamento 
É possível que este homem seja seu marido, namorado, empregado, amante, pretendente ou que não exista tal homem na realidade e que ele seja uma espécie de príncipe encantado dos sonhos, ou que ele exista de outro modo e as características dadas foram acréscimos poéticos. 
“Dorme serena e no sereno sonha” pode significar ter ficado ao lado ou abraçada ao sujeito, sob a noite, onde se admira a própria noite e se usufrui de todo aquele aconchego adormecendo ali tranquilos e apaixonados no sereno [ou próximo a um lugar que caia sereno, próximo do ar livre]. 
Ou, em uma interpretação mais picante, “dorme serena e no sereno sonha” é ter feito sexo apaixonado com o sujeito ao ar livre meio a bela paisagem noturna e após isso, dormido eles [ou somente ela] serenos, no sereno, literalmente. 
Algo semelhante com “de onde é que vem estes olhos tão tristes” ocorre com “de onde vem a voz tão risonha”. Está dizendo que gosta de sua própria voz, o que compõe sua beleza e de como gosta de si. 
Se há uma continuidade e uma resposta para de onde vem a voz risonha com “da chuva que teima mas o sol rejeita”, esta continuidade poderá ser falsa ou verdadeira. Se for falsa tem intenção de poetar a observação da natureza, seus mistérios e beleza com a utilização do fenômeno da chuva e da existência do Sol. É uma sentimentalização da paisagem, do cenário. 
 Mas se a conexão for verdadeira, poderá duplicar o sentido e manter o significado anterior é claro, mas terá que alargar “Sol e chuva" para o que significa estar vivendo no mundo, sobretudo se estender uma ligação intencional aos os próximos versos: “do mato, do medo da perda tristonha, mas que o Sol resgata, arde e deleita”. Sendo assim, chuva e sol é o mundo, composto de toda natureza. Em “Mato, medo e perda tristonha” há forte relação entre mato e medo. Pois mato, não é algo tão seguro, não transmite sensação tão boa como campina, por exemplo. E claro, perda tristonha está diretamente ligada com mato e medo e representam uma das partes ruins do que compõe a vida, mas que poderia se estender para todo aspecto negativo que a compõem. Seriam apenas acontecimentoe sentimentos ruins da vida, mas que vem a se confirmar na contextualização, a referência a própria vida, quando expõe após os sentimentos e acontecimentos tristes, aqueles que são positivos: “mas que o Sol resgata, arde e deleita”. Isso então fecha o conjunto do que se quer chamar de vida: acontecimentos e sentimentos ruins e bons e a própria experiência de vida.  
Seguindo a conexão entre os versos, o viver e os sentimentos que nele estão, é o que trazem a “voz tão risonha". Esta tem dois significados que se destacam. Voz risonha é a própria canção composta. É daquilo que foi chamado vida (experiências de vida, sentimentos disso resultante) que vem a canção produzida. É da vida que vem a inspiração para a voz risonha, que é a própria canção. Perceba que voz risonha é a pergunta que foi respondida, de que esta voz risonha vem “do mato, do medo, da perda tristonha; mas que o sol resgata, arde e deleita.” 
Outro significado de voz risonha tem sentido semelhante ao já descrito nos primeiros parágrafos, sobre apreciação própria de alguma qualidade perante a si e aos outros, a vaidade. Neste caso trata-se de uma apreciação poética, sem grandeza ou arrogância do próprio timbre e tom de voz bons para cantar e encantar. 
 “Mas, que o sol resgata, arde e deleita” representa um contraponto para a negatividade anterior de “mato, medo e perda”. Expõe o otimismo que o contrabalanceia ou o supera. O deleitar é viver um prazer e o arder é um prazer intenso, talvez relacionado a paixão, se fizermos uma ligação com o que é citado posteriormente em “Acende os corações”. “Deleitar”, “arder”, “Sol resgatando”, “mel”, “acender os corações”, “cores vivas pelo ar” e “brincadeiras” são mais fortes e numerosos do que “mato”, “medo”, “perda tristonha” e “sair cachoeira dos olhos”, daí a mensagem é que a vida é mais boa do que ruim; vida esta que aliás é de onde vem as canções, como já mencionado, mas que continuará sendo trabalhado na música.  
Em “há uma estrada de pedra que passa na fazenda, É teu destino, é tua senda, onde nascem tuas canções”, a autora fala sobre o processo criativo na música. Na parte musical, é este verso que ganha o clímax no aspecto sonoro, na musicalidade, na melodia. É o ponto mais belo da letra. Ela diz “teu destino, tua senda”, mas na verdade fala de si mesma. Do seu próprio destino, seu próprio caminho e porque não de uma estrada imaginária de pedras de onde nascem as letras das canções dela mesma? Talvez até seja uma trilha real em sua fazenda que ao caminhar nela, tenha composto ou ajudado a compor esta canção especificamente. Ou talvez realmente ela costume caminhar nesta trilha para criar suas letras de músicas. Com a palavra, os fãs de Paula Fernandes e talvez ela própria.
Pensar em uma estrada de pedra capaz de gerar uma canção instiga a querer saber para onde vai tal caminho. Como que se houvesse um lugar secreto para nascer a canção. Tinha-se visto que a canção vem da vida, mas de que parte da vida exatamente? Há de haver um momento e lugar do nascimento da letra, onde ela se complete, onde ela passe a existir vindo ao mundo por completo. É o momento da criação da letra da música.  
Algumas músicas, levam muitos a duvidarem que foi uma pessoa a ter criado, de que um ser humano não seria capaz de criar uma melodia, um ritmo que é muito mais difícil do que criar uma letra para a música. A letra é simples poesia com ou sem rima que quase todo mundo faz. Mas ao encaixar esta, com aptidão artística em uma melodia, pode parecer para alguns que foi algo revelado do além. É só você pensar na mais bela melodia que já ouviu, considerando mais sua musicalidade do que sua letra.  
Mas isso porque estas pessoas não entendem que uma música não é gerada pelo menos na maioria das vezes assim como em uma ejaculação espontânea. A música em si é um trabalho já acabado, mas que pode ter sido extenso. É produzida aos poucos nos estúdios, casando letra com um ritmo e melodias que as vezes são ainda desconhecidos e muito diversos da música acabada. A melodia também começa com esboço e com batidas até desagradáveis. E pode ser feito várias alterações nos esboços iniciais, incluindo na letra. A melodia pode não ser feita pelo mesmo criador da letra. A criação da melodia por vezes é um descoberta sonora feita aos poucos no estúdio entre instrumentos musicais, batidas, tentativas, erros e acertos.  
No entanto, existem poesias magníficas, mágicas e superiores a uma música acabada. Inclusive aquelas onde só há o cantor e seu único instrumento, que cria música completa espontaneamente. E ainda assim serão músicas e poesias eternas, pela grandiosidade do que transmitem para quem souber ouvir ou tiver a sensibilidade ajustada ao nível daquela canção. Este ajuste as vezes é de geração e as vezes impossível de ser feito. E acaba por se perder entre as décadas e em um mundo excessivo.
Poesias tratam diretamente do magnífico e transformam as pequenas coisas em coisas arrebatadoras. Conseguem fazer isso até com a patética paixão, imagina o resto! E há músicas não feitas em estúdios que são tão angelicais que assim que existam anjos, eles próprios se perguntam se é possível alguém fazer aquilo. Música com letra não é superior a poesia, ela é um tipo de poesia cantada e que acrescenta a audição as nossas faculdades de sentir poesia.  
Eu estava pensando estes dias, quase todas as músicas são tristes. Mas ao mesmo tempo dissolvem a tristeza nelas mesmas. Gostaria de falar das músicas instrumentais, seus processos de criação, de como são cósmicas, de como preenchem todo o vazio ecoando pelo universo pela sua eternidade expressando uma finíssima e delicada tristeza deste vazio, mas quase o tornando belo, mas não tenho esta capacidade. Imagino o primeiro homem fazendo sua flauta perfurando algum pedaço oco de osso e ali nascendo a primeira melodia que se eternizou com o primeiro homem no universo. Apesar de esta melodia ter se perdido totalmente, um dia este primeiro homem poderá vir a se encontrar novamente com sua melodia que ainda ecoa em ondas cada vez mais dissolvidas no todo.
O mundo começou com uma melodia feita por deus, logo depois dele começar a existir. Ela soa até hoje pelos abismos do tempo em baixas frequências. Mas não pode ser detectada, nem mesmo com esse negócio de sentir com o coração ou na detecção de radiação cósmica de fundo.
 “É teu destino é tua senda onde nascem tuas canções” significa que fazer música é o caminho e o destino da autora. Neste caminho se produzem as canções. Mas caminho é citado como destino e destino como caminho. Talvez essa abstrata estrada de pedra, tenha em seu destino, um lugar encantador, fantástico, maravilhoso e sublime. O que mais poderia ter neste destino ao qual esta estrada leva, pela qual seu mero caminho é capaz da criação? No caso aqui, da canção, mas que expando para tudo. A criação é a luz irradiando por todo o caminho do que haveria no seu destino. Criação é o que mais irradia. Mas a luz da criação irradiando por todo o caminho que leva ao destino é só para nós. Porque para o caminho, a criação de todos os universos, é só um cisco, que ainda está indo para o destino e não se sabe se chegará, pois poderá se perder do caminho se for atingida, ainda que pela mais suave das brisas. Se isso acontecesse, seria a pior desgraça de todas. A nossa sorte, é que não impediria é claro, o cisco continuar sendo a criação e existência de todos os mundos e daquilo que chamamos “tudo o que há”. O “há” é só a parte de fora e a casca do cisco, que se visto de perto é enorme. Mas existem bilhões de siscos no caminho, alguns chegaram e outros não. O caminho tem árvores com suas folhas balançando, que são o maior mistério de todos e ainda não foram descobertos pela ciência. Muito mais complexo que o cisco. Todo o caminho é formado por cada grão de terra que compõe o caminho com suas devidas pedras nas bordas. No caminho há coisas bem maiores indo ao destino, como pequenos animais. Mas o caminho é só um caminho como qualquer outro, tantos que há pelo mundo. Todas as ruas da terra saão caminhos. Digo isso porque Não quero que interpretem que interpretei o fim do caminho com o divino. Não quero transformar esse núcleo do caminho em um mero paraíso após a morte. Não é disso que se trata, pois isso é coisa insignificante dentro do sisco que essa hora já deve ter desviado. No destino de uma trilha no meio do mato haverá uma clareira, nada mais. Talvez um posso de agua. Caminhos e trilhas levam a destinos, mas algumas trilhas não levam a lugar algum, pois por desuso são tomadas de novo pela mata. Cada caminho um destino diferente. 
Mas o caminho de pedra que passava na fazenda era especial. Dele nasciam canções! Transformou a teoria do cisco em mito e depois em palavras sem sentido. Sua irradiação era cada vez mais forte. A visão que tive do que teria na sua chegada tornou-se minha obsessão. Cogitei a sua existência real, que nada teria a ver com um caminho ou chegada ao destino. Mas é o que eu tinha na mão e não queria perder.  O nada e o tudo juntos de vez enquando era a aberração que substituíram a espiral e a singularidade. Outras vezes a este bolo aberrante e aleatório  se misturavam transformações e permanências e todas as outras contradições e paradoxos que eu conhecia sem entender, mas principalmente aqueles que eu nao conhecia e ficava tão insuportável que eu procurava de novo desesperado pelo cisco. As vezes deseja arejar e ir passear em uma trilha e deixar que a natureza da trilha tomasse conta de tudo por mim. Mas passei a desconfiar que a culpada dessa incompletitude que gerava estas perturbações na compreensão era culpa da natureza. 
Só queria imaginar o quão Grande e perfeito conseguia atingir com minha próprio imaginação para além do caminho/destino que cria canção. Encontrei uma singularidade paradoxalmente mais luminosa do que toda luz do universo, que de novo era sisco. Mas olhei de novo e via o centro de um espiral para o qual tudo estava indo.  
 Aquilo não era perfeito. Me senti envergonhado por dizer que queria imaginar grandeza. Porque o que eu queria não era imaginar, mas ver e saber que existe, conhecer, tocar, ir para lá, se tornar aquilo. Mas só poderia experimentar isso com a imaginação mesmo. De outro modo não daria certo. Desde o início não poderia ter querido encontrar perfeição porque já parti de mim, que usa a palavra perfeição, que é limitado pela linguagem e por isso acaba achando que ela representa algo real. É, não daria certo porque partiu de mim e porque sou alguém. Quando se é alguém só é possível procurar este tipo de coisa, mas nunca achar. Só se pode achar, quando não se pode mais procurar. Este tipo de intenção não faz parte do que está no centro do redemoinho. Mas nunca tinha tentado olhar firme para o destino do caminho radiante. Antes foram somente olhares rápidos, de relances. Olhei agora de modo mais fixo, como se já não tivesse aprendido a lição de não olhar para aquilo. A radiação e a luz do caminho ao chegar no destino tornaram-se algo muito maior do que o que poderia ser chamado de luz.  Até hoje nunca soube dizer o que vi e só lembro do trauma que ficou. Só tem alguma palavra mesmo que medíocre para dizer o que era, talvez poderia dizer algo impossível. Sim, eu havia olhado para o impossível. O trauma foi de ter olhado para algo que ultrapassou a quebra da raiz da lógica. Porque achava que o impossível não era possível. E eu tinha olhado para o impossível. E teria que carregar mais essa contradição comigo. Porque nunca podeira ocntar a ninguém porque não gosto de contar isso nem para mim, porque não consegui entender o que significa o impossível acontecer. Mero capricho meu. A maioria nem se importaria com a lógica e nem com nada disso. Quanto  a mim, meu compromisso com a lógica semprre me ateapalhou bastante. Se trair a lógica me sinto próximo da loucura. É isso que consegui tendo olhar a coisa. Um trauma que trago ao me deparar com a minha linha divisória entre sanidade e loucura, que agora sempre parece querer voltar, pois virou trauma. É invasivo. Queria ver só o destino do caminho e acabei encontrando só o meu proprio limite em forma de pavor de loucura e que me colocou mais próximo da loucura permanente.. Quando tento esquerdisso, no máximo que consigo ficar é perturbado. Isso me afetou profundamente. Ou talvez não tenha significado nada. Vários dias nao penso nisso. Aliás quase nunca penso nisso. Pois duvido até do que disse. Qualquer discrição do mundo é uma invenção e não passa de descrição de si mesmo. Tudo o que disse está semente dentro de mim, ainda que seja a tão mera idéia  de que haja algo lá fora. Ou será eu meramente consequência do que realmente a lá fora que na sexta é tão diferente de como pensava ?Sobre o centro do redemoinho e o destino final do caminho, “é o que eu não sei. Nunca soube”.
Mas continuarei com a interpretação. Não há elementos que sugiram uma referência ao lugar aonde o caminho chegue, além de que ele é o próprio destino. Mas isso já causa certa inquietação por fazer pensar não haver um tão sonhado destino final, um resultado da nossa vida e tão somente um caminho, tão mais importante que sua chegada. Não que não haja uma chegada, mas que ela não necessariamente seja boa ou coincida com o nada.   Mas também chegada não deixa de ser uma parte do caminho, apenas.
Tenho que voltar estrita e especificamente a focar na interpretação da letra da música, que é coisa mais importante de todos os tempos para toda a humanidade. O caminho já seria o destino final. A finalidade da vida se basta à vida e não à morte. O destino final será tudo o que tiver feito pelo caminho e mais nada. 
Mas, provavelmente o destino da música não tem intenção de debater se há ou não o sentido da vida, se há algo depois da morte, pois não fica evidente "destino" estar se referindo ao grande destino final ou a um destino como fim de um caminho e se lá terá algo ou não. Mesmo assim nos dá o direito de pensar nisso. Dá-nos o direito de acreditar. A música limita-se ao caminho ser destino e nestes nascerem canções. Não, não há tal limite, tanto que me disseram que a música nos dá licenças ilimitadas. Não sei se é verdade, mas vou usufruir.
O caminho gera canção, do destino nascem canções, o destino é criar músicas, o caminho é criar músicas. Necessariamente músicas tem que nascer no caminho ou destino tem que ter sentido de caminho e não de chegada ao fim do caminho ou "cumprimento do caminho", porque se não somente após cumprir o caminho se criaria uma canção, ou seja, somente na morte que é o destino mais final de todos, é que nasceria a canção. Se não quiser se referir a destino mais final como a morte e sim o ponto culminante da vida, como a maior realização da vida, ainda assim não iria satisfazer, pois seria como ter feito apenas uma grande música antes de morrer. Por isso caminho e sendas são melhores para nascerem músicas, do que durante a morte. Destino é no sentido de aquilo que fui feito para fazer, aquilo que farei para sempre, quero dizer até o fim ou enquanto puder fazer. Mas deste não gostei, é cristão de mais. Um pouquinho até poderia. 
 "É seu destino é tua senda”. Senda é trilha e então é um tipo de caminho. Caminho leva a um destino. Destino é o lugar onde o caminho leva. Então é como que se dissesse que aquele caminho é também o destino, ou seja é também onde ele chega. Destino pode significar aquilo para o que a pessoa está predestinada, mas também é o lugar para onde o caminho vai. Então há o uso da palavra destino com dois significados, o de predestinação, o uso do dom de fazer músicas e destino como lugar para onde vai o caminho. Mas destino não é o lugar que chega o caminho, mas para onde ele vai. Há uma referência a tal lugar que é onde o caminho chega, mas sem se estar nele ou sem ter ainda chegado. A autora quis utilizar os trocadilhos dos sentidos dos termos alternando-os para aprofunda-los ao utilizar caminho e destino. Ou talvez nem pensou em fazer isso, não sei. Difícil  saber, não sei onde nasce uma canção. Não sei nem o que é uma canção porque de saber, também não sei. Mas o que restou do sei, pode se comparar a algo tão nobre e a altura da maior realização de uma vida ou mesmo com a luz que dizem ver ao estar morrendo. 
A minha fascinação em chegar ao destino, ao lugar para o qual o caminho de pedras leva ou descobrir o que haveria no destino do caminho mesmo, não é explorado pela letra da música, porque caminho e destino acabam mais coincidindo do do que se ansiando. Alias gostei desse termo na aproximação tão diferente dos sinônimo nas poesias. Ansiando é o modo de ralação sinonímica entre caminho senda e destino. Mas a música também poderia nascer lá no fim do caminho como aquele clímax que eu procurava, tanto como  durante o caminho que é o certo. Nascem as canções aonde? No caminho que é o destino. Contudo se vislumbrei o que é fascinante no fim do caminho foi justamente derivado da troca e combinações dos sentidos utilizados e não por este estar intencionalmente na letra, o que não faz com que não esteja. Tal vislumbre se derivou da letra da música pelas significâncias que causaram em mim somente por causa da letra da música, então estavam escondidas nela. Então percebo que a interpretação de poesias (no caso aqui música) podem transcender a ela própria. 
“As tempestades do tempo que marcam tua história Fogo que queima na memória e acende os corações” me fazem refletir no tempo. Somo formados pelo tempo. Somos o nosso passado até o presente. Quem já morreu foi o seu passado, quem está vivo é o que foi até então. Os grandes eventos da vida são as tempestades do tempo e marcam nossa história.  Quando então tentamos filosofar de que “o que passou, passou”, o que não deixar de também estar certo, de que o passado não existe mais, sendo apenas uma lembrança e, sendo isso um pouco triste, a letra traz uma oposição a este nada passado: “é um fogo que queima na memória”. Então o que lembramos, destas tempestades de tempo, os grandes eventos principalmente amorosos, são intensos na memória, tanto que chegam a ascender os corações, o que significa apaixonar-se no presente ou pelo menos sentir as mesmas boas sensações, “entrando no clima” no presente agora, ainda que derivado de memórias passadas. 
O restante da música expõe elementos privados da autora que fala em Sete Lagoas e se tratar este o local onde nasceu. Em "pés na terra nascem flores" e "brincadeiras" podem referir-se a fatos e lembranças de sua infância, na sua terra natal, embora eu tenha computado "brincadeiras" como parcela para a vitória da positividade. Já em pés na terra nascendo flores não consegui tornar algo positivo se quiser deixar pleno de sentido. Pés na terra e nascer flores não me soa negativo, mas nascer flores dos pés na terra não ficou muito claro o sentido. Seria uma modalidade de arado? Seria como plantar estando descalço ou usar os pés para plantar flor ou outra planta? Ou mesmo plantar flor enquanto estava descalço. Não tenho certeza do que seja "dos seus pés na terra nascem flores" e nestas arriscadas que dei não consegui ver claramente uma positividade, no contexto do verso, só nas palavras isoladas. Mas não me arrisco nisso mais por não ter tido um nível razoável de certeza. Mas existiriam níveis de certeza? Sim. Diz-se a fé ser um. Se nao fosse a contradiria. Mas por esse motivo todo meu texto seria desprezível. Sim porque não é de certeza absoluta que se interpreta ou analisa uma letra poética de música. Acho que não fiz nem uma coisa e nem outra. Ou se fiz foi mais analise. Devo ter feito isso somente em alguma parte desse texto. Cansei de dizer que ia retomar a interpretação. Isso foi bonito mas não,  a maior parte só foi resultado de inspiração sobre inspiração mesmo. Essa só minha. Ou talvez muito pouco da autora. Se interpretei alguma coisa foi mais a mim mesmo. Se consegui? Com certeza não. Tenho fé nisso. Que  tola minha tentativa de fazer literatura, relendo agora não percebi não me pareceu tão intenso como quando escrevia. Se não fosse cabeça oca, usaria o princípio da identidade na interpretação. Claro que isso é mais um enfeite, não se usa lógica em poesia. Ah, eu sempre quis falar isso. Na verdade sempre quis falar que ah, sempre quis falar alguma coisa. Então digo, literatura pobre. 
Os últimos versos antes das repetição, de certo modo ou de outros modos continuam os processos das vaidades delicadas e lírica que agora de tanto falar nelas passo a impressão não de que essa música específica da Paula Fernandes é sua vaidade falando, mas que toda música é feita com fundamento na vaidade algoz, venenosa pecaminosa. o que não é verdade. Até porque então a vaidade estaria também nos textos em blogs  dos interpretadores de letras de musica. O texto nesta condição seria mal intencionado e seria a vaidade do interpretador falando. A diferença é que seria uma vaidade menos potente, inferior e resmungona e que não canta nada. Eu me livro disso porque nao sou um interpretador de letras de musica. Meus textos são  muito casuais, amadores e sempre limitados por minha prostração, cansaço e vazio na cabeça. Nao digo isso com a vaidade de nao querer ser amador. Nao te contaria nem que me matasse os mais profundos e vergonhosos  motivos de ter me preocupado com a interpretação desta letra que nem é tão boa assim e partiu de uma escolha quase aleatória minha. E haverá melhores cantores. Eita vaidade resmungona! 
E com mais uma bela passagem onde se misturam elementos da beleza e grandeza da natureza, com a amplidão que há dentro do sujeito, que pode ser a amplidão que a autora vê dentro de si mesma, mas que se aplica a todos os que buscam além das atividades cotidianas que encerro esse texto. Acho que quase todos fazem isso em algum momento, que é olhar para as “Espumas ondas, águas do teu mar”.  
Terminei o texto com a interpretação da musica e com um verso entre aspas tirado da musica, não só por respeito e inferiorização em relação a produção original, mas para comprovar que não sei finalizar isso. Bom agora já acrescentei mais um parágrafo e dei outro fim ao texto. Pra que isso? Ressentimento? Confronto? Competição? hostilidade? Nada disso. Só sei que foi péssima finalização e deveria ter deixado como estava: espumas ondas água do mar. Só mudei um pouquinho. É, o final deste texto continuou ruim. É  que talvez todo fim do que é  bom seja assim mesmo. Aqui nao me refiro nem ao meu texto e nem a produção original modificada mas a vida. Isso é  serio apesar de banal como afirmação. É o que de mais sério há. Mas também motivos de discórdia. Literatura experimental me libera prolixidade, fuga  do tema e história sem fim? Também isso, mas  o que eu falava antes é motivo de discordância. Por isso por enquanto prefiro as ondas, espumas e águas do meu grande e imenso mar interior que agora não precisam mais de aspas porque manipulei o mundo, mas que continuam vaidosas e errantes para avaliar sua grandeza. E depois desejarei oceanos reais de água salgada que cobrem meu planeta que é minha mãe. E que é mãe de minha mãe. Mas longe de ser tudo o que há mesmo para além do ultimo vapor do universo ou de Ícaro, a estrela mais distante. Preferiria  eu a costa destes oceanos na paisagem tao real quanto a daqui da terra, ainda que em outro planeta  ameno, por que terá praia, areia e um sol menor e mais perto ou maior e mais longe.  
Mas me contentarei com os oceanos daqui desde que seja todo ele e com sua capacidade de diluir coisas.  Percebi oscilação da vaidade e procurei estacionar naquela que é diminuída mas ainda assim bem acima daquela que nao da para abaixar mais porque trata-se da própria vida e se confunde com amor próprio mas que ainda esta bem abaixo da auto estima e que nao é  a mesma de que se tem quando se percebe e se compara tamanho ou imensidão infinita com menos do que o pó do pó que gira em torno de outro pó  infinitamente  menor que nao tem como diminuir porque se nao morre ou nao mais existe. Claro que não falo das incríveis partículas subatômicas. Estas são gigantescas. Tenho que ajustar para auto estima inabalável e encontro excesso do qual não posso sustentar. E só por nao conseguir  sustentar que ajusto de novo mais um pouquinho. E ousadamente digo que ultrapassei o final que não é mais só deste texto. E em toda minha vida é nisso que mais espero não estar equivocado. A sorte é que não terá como eu estar equivocado porque mesmo sem saber o que, a coisa só pode ser o que é e então espero só o que será e nada mais. Mas temo quando acrescento esse nada mais por medo que ele seja a coisa que é, temo que seja realmente o nada mais, como já me referi antes. Mas menti. A  muito tempo já superei o medo do nada e entendi Epicuro. Não porque sou forte e para isso não precisa ser forte, mas porque minha vontade é  irrelevante e fonte de engano. Mas não sei se o nada é. Mas sei que talvez não tenha superado o medo dele não.  
O nada ser, é a maior contradição do mundo. Mas acho que não é bem disso que se trata. Mas me preparei para o meu nada e é disso que se trata. Isso foi uma conquista penosa talvez a maior da minha vida. Porém a todos e sem esforço isso também deixa livre o caminho para receber, se houver o algo irradiante e de prazer inesgotável na fonte do caminho de onde a estrada de pedra passa, o destino que é  para onde vai o caminho. O próprio caminho, do que ele é feito, onde chega e a resposta do porque existir um caminho e todo o mundo a sua volta chamarei de núcleo do caminho. Claro não terá só um caminho. Mas suponho aqui só um destino para chegar, esse núcleo seja lá  o que ele seja. Mas além de tudo que esse núcleo contém, também há algo a mais que é bom e impossível de explicar. Sei que inventei esse núcleo, mas ele é  radioso e mais belo do que a essência da beleza e do sublime, se é que esse tipo de coisa exista.  Só não acho que este núcleo seja fonte de prazer inesgotável como acabei de supor pois lembrei que isso é muito humano. Se houver deve ser mais do que prazer mais do que qualquer coisa que conheço por palavras. Mas por enquanto terei que morrer com a duvida de atravessar o abismo sem saber se sairei do outro lado e se algumas dessas coisas façam algum sentido. Por enquanto terei só que morrer, depois vejo o que eu faço se houver algo a fazer, se conseguir resurgir desse nada que é estar morto. O único jeito de fazer isso é superar o absurdo desta afirmação contraditória, de que o nada é nada e nada surge dele. Agora posso apenas achar que lado do abismo, sentido e núcleo  radiante são meras palavras e que a coisa mesma se houver  é indizível. Mas uma das pistas da verdade sobre o núcleo radiante está na palavra utilizada: “houver”. Esta é a mais meramente palavras de todas. Ou justamente por isso talvez seja a única palavra com alguma remota, mas real distancia da coisa que é. Já tinah abandonado faz tempo aquele apelido que tinha dado: impossível. Aqui já não falo mais em sair do outro lado do abismo mas encerro o texto. 
Não me importo se palavras que digo não tenham sentido para mim não fora de contexto, mas mesmo no contexto, as quais as inseri. E também que não tenham sentido para você. Mas tenho medo que não tenham sentido real no mundo. Tenho é temor de vir ter certeza disso. Meu único refúgio é não saber, algo tão necessário para alguma certeza. Ou talvez nem me importe com sentido de palavras, só com o sentido de tudo. Mas se for, é um se importar mais brando, já resignado pela aceitação. Pelo menos em teoria. É nela que venho concentrado minhas energias. Não é necessário esforço por ninharias humanas. O terrível é que essas migalhinhas que demos nome de Sentido, saber, criação e experenciar são coisas pequenas, do nosso tamanho e só até onde podemos chegar. Porque o evidente modo de transcender tudo isso é apavorante e precedido da maior das agonias. A morte é o momento mais soberano de uma vida, porque transcende a todas essas preocupações mesquinhas humanas. É ali que poderá haver um vislumbre do olho do furacão, o momento onde realmente naça uma canção que de tão bela jamais poderá ser ouvida pelos vivos, pois talvez todos nós seremos uma canção eterna flutuando.  Porém pode acabar não sendo momento de se saber se não se iria preferir ficar com as mesquinharias ou se realmente não ser nada tenha esse terrível significado que é tão claro em nossa mente. não saberemos se não ser nada é melhor do que ser um humano? Ser nada é tão claro e de significado tão legível, apesar de não sabermos nada sobre o restante do mundo. Pode-se nunca saber disso. O problema é que de novo estou querendo saber. É isso que se deve evitar sobre essas coisas. Não se pode saber o saber, só filosofar sobre isso. Só falamos de um ponto máximo de tudo, porque o entendimento está acima desse ponto máximo, o que pode por tudo a perder, porque nada garante a realidade seja de fato assim. Ah! Como somos inocentes quando falamos em realidade, porque falamos de algo que não temos a menor ideia do que seja. Aliás, isso é próprio nosso e pode se estender a quase tudo de que falamos. Talvez a tudo. Caminhamos e construímos civilização a paartir de conhecimentos razos, que de fato não se conhece, mas que caminham sozinho e ganham força pela ganância, vaidade e técnica. Sonhei com musica é tudo vibrava musica era só aumentar a sensibilidade. 
  Aliás, dizem que o homem ficou inteligente por uma anomalia da seleção natural. Por isso esse será o único e inequívoco modo de saber, onde se arriscará perder tudo e sem saber se perder tudo é a melhor coisa. Mas é único modo de saber se haverá algo a mais. Pensando bem qualquer coisa que tiver será positiva, se for o nada é bom porque não sendo ruim é bom. O nada não é ruim e nem bom por não ser nada. Não  suportaríamos muito tempo ficar longe dele, porque lá está nossa raiz e o bom filho a casa retorna. A vida é experimental. É como que uma experiência vinda do nada, experiência feita pelo nada. Sei que não é isso, mas é como se fosse. O nada é nossa maior segurança para as dores de existir, justamente por não precisar de segurança e por não precisar do precisar. Quando não se é nada, de nada precisa. O nada não percisa nem dele mesmo. Não se esforça para perseverar em seu ser. Isso é um tanto tentador quando se está perdendo as forças, enquanto se é humano e se vive em fim. Depois não será nada. E se após a morte, o que daí não será após a morte mas novo tipo de ser, continuar as mesmas mesquinharias de antes só acrescidas da vida anterior? Isso também seria bom. Nos raros momentos de felicidade, gosto tanto das bugigangas do meu quarto, das utilidades da vida, das suas metas ainda que sem sentido. Também sei apreciar prazer de viver, embora para mim seja como garimpar no meio de dores e tédio. Só não espero que um salto para além do tudo isso seja tão fácil. Essa sim, será a coisa mais difícil, provavelmente impossível. De qualquer modo tenho uma grande certeza que não irei mais me preocupar com isso ou que será de um modo ou por algo muito diferente.









sábado, 28 de março de 2020

já que tem que ser assim, nao quero morrer ao entardecer, mas de dia pois assim acho que saberei que a luz continuará.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Álvaro de Campos TABACARIA

Álvaro de Campos

TABACARIA


TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Meu sonho com a beleza


Não preciso citar as incoerencias anteriores própria dos sonhos. Sonhos lindos não me são tão comuns, pelo menos não lembra-los para descrição. Aliás, mesmo quando lembrados, a descrição é o maior desafio. De algum modo eu era uma espécie de Android ou robo misturado a um corpo humano que fazia "missões na NASA" ou algo parecido com isso. Estava proximo de uma mulher, que parecia ser de uma artista conhecida e nos beijamos. O ultimo sonho lindo que tive, também lembro de estar próximo a belas meninas o que foi bom, mas o que se seguiu não teve relação com isso, mas incluiu sobrevoo. burlei algum sistema para conseguir um copo de água ou algum outro líquido de algum conhecido, que não sei se era minha mãe que estava a trabalhar no local. Então aqui o sonho -me. Por um instante pensei que por eu ser uma epécie de android ou ciborg, a identificação seria automática e facilitada. Ergui uma espécie de crachá com chip e esse movimento foi conduzido literalmente de forma robótica, ou seja esta parte cibórgue minha que operou esta ação. Mas ironicamente a maneira de erguer a identificação tinha sido atrapalhada ou esquizita o que gerou um leve contratempo na identificação. Em fim entrei e tinha que fazer algo como uma missão, ou um trabalho lá dentro. Daí veio a hitória da água, que temporalmente parece que tinha sido antes, mas aqui teria maior coerencia narrativa. Estava eu lá com o copo de água na mão e iniciando a missão. Algumas pessoas falavam outros idiomas e eu conhesguia se comunicar com elas.Eu começava a sobrevoar, ou a ver de cima as instalações do lugar. Mas logo depois comecei a sobrevoar uma área exuberante. Era uma planície alagada, disso eu sei. Um verde infinito. Com verde infintio quero dizer que era uma paisagem maravilhosa, celestial. O arrebatamento da sensação do maravilhamento sentido se deu no instante em que este local do qual eu via a paisagem, começou a virar, de modo que o líquido que estava no copo caía sobre a paisagem. A plataforma de onde estava parecia um balão de ar quente e o modo que virava lembrava aqueles brinquedos de parque de diversão, que começam a virar de ponta cabeça onde a pessoa fica presa por um suporte junto ao corpo. Mas este balão, não tinha tal suporte, era apenas uma barra que segurava contra a  virada. Mas isso não apresentava problema ou risco de queda. Virávamos então em cima da paisagem. Duas outras coisas misteriosas sucederam. Desta paisagem emanava uma música. Ficquei o dia todo procurando tal música no computador, após ter acordado. (Reiki Music With Bell Every). A música se casava perfeitamente e em harmonia com a paisagem, enquanto o líquido derramava. A música vinha profunda aos sentidos. Nisso eu me emocionei e comecei a chorar. As lágrimas caíam assim como o líquido do copo, sofrendo uma inclinação aparente devido ao posicionamento do "balão" ou do vento. Mas o mais belo e misterioso eram outros sons que surgiam meio a música, a paisagem e meu vislumbre. Eram sons indescritíveis que acompanhavam o rítimo de música, mas que também eram sons musicais embora muito mais "nobres".
estranhamente o local visualizado na tal Missão, era pequeno, logo acabou onde começaram aparecer ruas comuns. Eu acordei pensando na filosofia da Beleza. Uma certa questão me surgiu. Se eu pudesse ser aquilo ali sempre. Ser aquela sensação. Não apenas senti-la. Pois o sentir acaba e se satura. Se eu fosse o conjunto daquela exuberancia correria o risco de não ser nada?  Onde está exatamente o ser da sensação maravilhosa? Está em mim? Esta é um desejo e uma falta e portanto é algo negativo, já que é passível de saciedade? Seria possível saciar-se daquela sensação, que se misturava com o desejo de ser aquilo eternamente. Se este tipo de arrebatamento por uma beleza misturado com seu êxtase de se sentir tal coisa, estaria imune do pêndulo de shopenhauer, se pudesse se estabilizar na satisfação ainda repleta e plena, jamais decaindo em tédio ou desejo como sentimento ruim de algo que falta, que pode as vezes ser pior que tédio mas nem sempre (estes oscilam em negatividade entre eles),  está seria uma forma de se estar bem em uma eternidade. Seria o céu eterno do qual jamais se entediada.